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Os Fofos Encenam Deus Sabia de Tudo...
Crítica: Newton Moreno e Os Fofos apresentam teatro redentor

Não se trata, porém, de uma peça militante stricto sensu. Não se pede para


Ferdinando Martins, especial para o Aplauso Brasil (fmartins@aplausobrasil.com)

SÃO PAULO - Newton Moreno é um dos principais nomes da nova dramaturgia brasileira. Autor do premiado Agreste, ele se exercita com temas provocantes e experimenta gêneros e linguagens que vão do circo-teatro ao teatro narrativo.

Ainda que em construção, sua obra pode grosso modo ser dividida em dois grupos temáticos: de um lado, o Nordeste e suas histórias; de outro, a homossexualidade em situações limites. São temas que se relacionam com sua biografia, sem dúvida, mas que extrapolam o universo particular para adquirir características universais, inerentes à condição humana e às determinações históricas.

Na fissura entre o teatro e a realidade, Newton escreve em forma dramática uma documentação poética do mundo em que vive ou viveu e, da tristeza, faz emergir uma comicidade que torna mais leve a existência. É nessa chave que pode ser interpretado um de seus primeiro trabalho, Deus sabia de tudo... (sim, o nome foi reduzido por Newton Moreno, antes chamava Deus sabia de tudo e não fez nada), que acabou de reestrear no Espaço Os Fofos Encenam, sede da companhia que abrigou também seu Assombrações do Recife Velho, baseado na história de fantasmas coletadas pelo antropólogo Gilberto Freire nos anos 1930.

Deus sabia de tudo... reúne histórias de homoerotismo calcadas na sobrevivência face a discriminação. A peça foi a primeira montagem dos Fofos Encenam, no ano 2000, e o primeiro texto de Newton, que também assina a direção. Os temas vão da homofobia ao envelhecimento. Há um velhinho que quer beijar seu companheiro em público, mas teme a reação dos outros. Há Valdeci, morador do Morro que se veste de mulher e é assassinado pelo machão do pedaço. Há um paciente terminal de Aids que implora por um beijo. Há um gay que seduz um padre em um banheiro público. E há um travesti que quer matar o assassino de suas colegas de pista.

Entre uma cena e outra, na esquete que costura o espetáculo, dois homens tentam se beijar, um mesmo texto é apresentado em diferentes épocas históricas, mostrando dois homens que não conseguem se beijar. Com isso, o autor mostra a ancestralidade do preconceito e do estigma que levou homossexuais ao isolamento ao longo dos séculos.

Não se trata, porém, de uma peça militante stricto sensu. Não se pede para o público partir para ação, brigar pelos direitos ou algo parecido. Mas há uma transformação em vista, se não a social, difícil de se conseguir, ao menos a pessoal, íntima e intransferível. Assim, o peso da opressão é substituído por uma atitude mais lúdica, easy going, que neutraliza os efeitos do preconceito.

Ao mesmo tempo, a variedade das situações e dos personagens reflete a diversidade humana, que vai além da sexual. De maneira inteligente, o figurino de Leopoldo Pacheco e Carol Badra soube explorar os muitos universos possíveis da homossexualidade: do traje de cangaceiro à calcinha barata comprada na loja de departamentos, da camisa chinesa de cetim ao jeans e camiseta. Diluem-se, assim, os limites dos conceitos rígidos. Afinal, se gays são tão diferentes entre si, não faz mais sentido julgá-los em bloco, discriminá-los como se fossem todos iguais.

Um teatro redentor, Newton e Os Fofos mostram que a vida é mais que sofrer. Ainda bem.

 

Deus sabia de tudo...

Espaço dos Fofos Encenam

Rua Adoniram Barbosa, 151

Tel.: (11) 3101 6640

Sex. e Sáb.: meia-noite

Ingressos: R$ 20

 



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